A Receita Federal e o Gaeco deflagraram nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, a Operação Crédito Oculto , desdobramento da Operação Carbono Oculto. A ação apura estruturas financeiras complexas que, segundo o fisco, movimentaram R$ 11,6 bilhões para ocultar o controle de uma usina sucroalcooleira e viabilizar a compra de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país com recursos de origem ilícita. Por isso, escritórios que atuam em reestruturações societárias, holdings e operações de M&A precisam entender o caso em detalhe.
De fato, a Receita Federal conduz a Operação Crédito Oculto com o Gaeco, a Secretaria da Fazenda de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, a Polícia Militar e a Polícia Civil. Além disso, núcleos do Gaeco em Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina dão apoio à ação. Em síntese, o objetivo central é desvendar o uso de estruturas complexas de lavagem de capitais na aquisição da distribuidora de combustíveis.
De acordo com o comunicado oficial, a operação cumpre 26 mandados de busca e apreensão vinculados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas. Desse total, 26 endereços ficam em São Paulo, enquanto um fica em cada um dos outros seis estados que participam da força-tarefa. Consequentemente, a ação alcança o eixo financeiro do esquema e as pontas regionais da estrutura investigada.
De acordo com levantamento divulgado pelo Ministério da Fazenda, as estruturas financeiras investigadas movimentaram cerca de R$ 11,6 bilhões. Ou seja, o volume coloca o caso entre as maiores operações de lavagem já apuradas pela Receita em parceria com as polícias estaduais.
O esquema, segundo o fisco, se montou em duas etapas. A princípio, a organização criminosa ocultou o controle econômico de uma usina sucroalcooleira no interior de São Paulo, caso já identificado pela Operação Carbono Oculto. Ao mesmo tempo, a titularidade formal da empresa aparecia distribuída entre fundos de investimento e outras sociedades aparentemente independentes. Entretanto, os indícios reunidos apontam que um mesmo grupo preservava o controle real da operação.
Em seguida, na segunda etapa, essa infraestrutura serviu de plataforma para a compra da distribuidora de combustíveis. Além disso, um operador financeiro, titular de fintechs e de outras empresas do seu grupo, teria usado a própria arquitetura societária tanto para movimentar recursos da organização quanto para criar camadas adicionais de anonimato sobre os verdadeiros beneficiários.
Entre os principais achados, por exemplo, a Receita destaca uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios da usina. Conforme a apuração, uma empresa ligada à sociedade de investimentos adquiriu os créditos por meio da transferência de cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios, o FIDC. A análise financeira, aliás, indicou que parte relevante dos recursos veio de fundos controlados pelo próprio grupo investigado, o que criou um fluxo circular com aparência de legitimidade.
Logo depois, a usina teria recepcionado cerca de R$ 100 milhões enviados pela organização para financiar a compra da distribuidora. Conforme apontou o Ministério Público de São Paulo, os valores passaram “em poucos minutos” por múltiplas contas gráficas de três empresas, ocultadas por contas-bolsão em fintechs, funcionando como meras contas de passagem até chegar à conta da usina.
Por fim, a fraude ganhou um último degrau: um certificado de depósito bancário vinculado, o CDBV. O fundo de investimento adquiriu um CDB junto a um banco tradicional, e o banco, então, usou o dinheiro em uma operação “casada” com a emissão de duas cédulas de crédito bancário para empresas de fachada da própria organização. Desse modo, as empresas se capitalizaram por meio de um negócio jurídico simulado e os verdadeiros financiadores da compra ficaram fora do radar. Além do mais, houve aquisição integral de cotas de um fundo imobiliário, com os imóveis já transferidos antes para empresas patrimoniais, o que blindou o patrimônio e dificultou a identificação dos donos reais.
Com efeito, a Operação Crédito Oculto nasce da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 com participação da Receita e de órgãos de inteligência federais e estaduais. Além disso, a ação original desvendou conexões do crime organizado com o setor de combustíveis e com instituições financeiras que lavavam recursos, e ajudou a revelar o escândalo do Banco Master. Portanto, o novo desdobramento persegue o elo que faltava: o destino do dinheiro e a aquisição da distribuidora.
Segundo o governo, os fatos apurados podem caracterizar lavagem de dinheiro, ocultação de bens, direitos e valores, além de organização criminosa. Enquanto a investigação segue sob sigilo, a Receita reforça que o cruzamento de dados financeiros, societários e fiscais sustenta o caso.
Para o escritório contábil, portanto, o caso reforça três lições práticas. Primeiramente, toda estrutura societária precisa de substância econômica real: empresas patrimoniais, holdings e fundos sem função operacional chamam atenção do fisco. Além do mais, operações de M&A exigem due diligence robusta sobre a origem do capital, inclusive quando o financiamento passa por fundos e estruturas financeiras sofisticadas. Por fim, o contador precisa conhecer a cadeia de controle dos clientes, porque a responsabilidade profissional alcança quem operacionaliza movimentos sem lastro.
Por isso, um roteiro de proteção ajuda na rotina:
A participação em esquema não se presume. Entretanto, a documentação organizada é o que permite demonstrar boa-fé e correção técnica quando o fisco questiona. A guarda estruturada de documentos, aliás, já era recomendação central em nossa análise sobre a prevenção à lavagem de dinheiro na contabilidade .
Na verdade, o caso mostra o padrão que o fisco já sabe enxergar: contas-bolsão em fintechs, fluxos circulares entre fundos do mesmo grupo, negócios “casados” com bancos e operações executadas em minutos. Assim, ao assessorar uma compra ou reestruturação, o profissional deve desconfiar de estrutura societária mais complexa do que a própria operação exige. Ao mesmo tempo, a Operação Crédito Oculto confirma que o cruzamento entre dados fiscais, financeiros e societários está cada vez mais rápido e preciso.
Assim, para organizar documentos, obrigações e o histórico das empresas da carteira em um só lugar, a plataforma da Ledware reduz erro e retrabalho na rotina do escritório.
Fontes: Agência Gov/Receita Federal — Operação Crédito Oculto identifica novas conexões financeiras ; Valor — Receita identifica movimentação de R$ 11,6 bilhões ; G1 — Receita Federal e Gaeco cumprem mandados . Imagem: elaboração própria para o artigo.
24 de setembro de 2026